genesis
Querido Granja, Hoje a minha irmã chegou a casa a queixar-se do vento da nossa cidade. Percebo-a como se tivesse sido ontem a minha primeira vez que visitei a nossa Veneza e senti o vento a despentear-me o cabelo e arranhar a garganta. Mas hoje não consegui odiar o tempo. Hoje não odeio nada, nem ninguém. Hoje escrevo-te de maneira diferente da que te escreveria há um mês atrás. Acordar-te-ia com um "bom dia meu amor, parabéns a nós", e seguiria o resto do dia a lembrar-me de como o vento de que tanto se queixa a minha irmã, há um ano e cinco meses atrás abençoava-nos e nos embalava na sua cantiga de amor. Hoje não é assim. Hoje uso o cabelo despenteado por preguiça e a garganta arranha-me pois evito chorar. É estranho pensar que tudo acabou assim, "do nada", dos macacos da tua cabeça contra os quais não consegues lutar. Mas atenção, hoje não te culpo. Talvez, um dia, possa vi-lo a fazer da boca para fora. Mas hoje sei que a culpa não é tua, nem minha, ne...