genesis
Querido Granja,
Hoje a minha irmã chegou a casa a queixar-se do vento da nossa cidade. Percebo-a como se tivesse sido ontem a minha primeira vez que visitei a nossa Veneza e senti o vento a despentear-me o cabelo e arranhar a garganta. Mas hoje não consegui odiar o tempo. Hoje não odeio nada, nem ninguém.
Hoje escrevo-te de maneira diferente da que te escreveria há um mês atrás. Acordar-te-ia com um "bom dia meu amor, parabéns a nós", e seguiria o resto do dia a lembrar-me de como o vento de que tanto se queixa a minha irmã, há um ano e cinco meses atrás abençoava-nos e nos embalava na sua cantiga de amor.
Hoje não é assim. Hoje uso o cabelo despenteado por preguiça e a garganta arranha-me pois evito chorar. É estranho pensar que tudo acabou assim, "do nada", dos macacos da tua cabeça contra os quais não consegues lutar. Mas atenção, hoje não te culpo. Talvez, um dia, possa vi-lo a fazer da boca para fora. Mas hoje sei que a culpa não é tua, nem minha, nem nossa. Nenhum de nós viu o que estava para vir e deixamos a guarda descansar.
Idiota.
Hoje escrevo-te com lágrimas nos olhos e um aperto estranho nos nós dos dedos. Parece que não quero escrever, mas sinto que o tenho de fazer. Escrever a tristeza e viver a bravata. Já me habituei e tão cedo não descobrirei o que fazer.
Ainda te sinto aqui. Tudo no meu quarto me lembra de ti, apesar de só teres cá estado uma noite. Tenho pendurado uma pintura que te roubei passado pouco tempo de começarmos a namorar: é um monte de galáxias azuis e lilás e sinto-as sozinhas. E essa solidão ataca-me. Não sei o que fazer à tua vela, aos teus livros, às nossas fotos. Sinto-te tão longe e ao mesmo tempo tão perto.
Hoje escrevo-te porque ainda te amo e a ferida ainda é grande demais para sarar. Não é um arranhão que fazes num dia e desaparece no outro. É uma ferida enorme, como as reais galáxias que outrora prometemos conquistar juntos. Mas deixarei às mãos do destino perceber se foram promessas sérias ou ocas.
Hoje desejo-te os parabéns a nós, Caloirinho. E desejo que recuperes, mesmo que não voltes para mim. Só quero que as tuas feridas sarem e que sejas feliz.

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