Thirteen

À pessoa que habita o treze,

Se há coisa que eu sei é que esse quarto nunca te pertencerá. Sei-o porque foi o único sítio ao qual uma vez chamei de casa e acho que o continua a ser.
O treze não é só um quarto.
Foi aí que vivi uma vida. O colchão onde dormes não é só uma cama; partilhei-o com os meus amigos e os homens que me viriam a quebrar o coração. Nele fiz amor, mas também fiz amizade. Já manchei essa almofada de lágrimas e de risos. Ambos fizeram me crescer. As noites passadas a perder-me em corpos suados e as madrugadas passadas a viver momentos de felicidade estarão para sempre vivos na minha memória.
Sabes a marca de derretido na secretária? Foi a Maita que pousou uma panela a escaldar porque fomos confinados a comer no quarto pois ninguém da residência gostava de nós. O chão que calcas, e nem sabes que é de um cinzento frio, já foi cama de muitos. O lavatório passava a vida manchado de pasta dos dentes ou grego de uma quinta feira louca. Nunca saberás as vezes que me escondia no armário para que a ansiedade e o medo se fossem embora. Não sabes as vezes que saltei na cama a dançar putaria, ou os momentos de tristeza por que passei, a chorar a noite toda, arrependido por ter escolhido Aveiro e não o berço da minha mãe. Os dias passados a fumar à janela, com medo de que algum segurança me visse. As manhãs amanhecidas ao lado do homem da minha vida, as manchas de semen nos lençóis. A minha casa.
Por alguma razão, Deus não me quis mais ai. Acho que é porque tinha de crescer, esse quarto apelava à ingenuidade que tanto lutei por perder.
Hoje és tu que dormes aí, mas ficas a saber que na minha cabeça, eu durmo aí. O único sítio onde fui verdadeiramente feliz, sem o saber. Sabes, a vida é engraçada. Quando deixei esse quarto pela última vez, não verti uma lágrima. Verto-as agora que não tenho o sol a bater nessa empanada que aquecia o quarto a graus do inferno.
Dói saber que jamais terei os meus amigos a baterem à janela, ou que não vou acordar a meio da noite com os estrangeiros a fazerem barulho. Dói. Mas alegro-me na esperança de que algum dia outro sítio será a minha casa e novas memórias vão acontecer.

Comentários